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Jorge Tomé, Carlos Costa e o BANIF

1 comment

É a primeira vez que analiso o BANIF neste espaço de comentário. As razões da minha reserva passada são óbvias para quem me conhece. Para quem não conhece direi que Horácio Roque era um dos meus melhores Amigos no mundo das finanças. Uma Pessoa que nunca mudou o seu padrão de comportamento para comigo nos bons e sobretudo nos maus momentos. A memória extraordinariamente positiva que tenho de um Homem verdadeiramente excepcional implicava que o mínimo que poderia fazer era reservar-me a qualquer comentário à “menina dos seus olhos” – por quem de verdade deu a vida – o BANIF.

É portanto com grande relutância que ouso ultrapassar essa reserva mas sinto que a importância dos desenvolvimentos em curso merece um comentário.

O BANIF partilha muitas das debilidades da banca portuguesa e em algumas dimensões tem scores bem melhores do que a média. No entanto, qualquer observação estrutural tem que entender o contexto do que foi a luta – diria titânica – de um pequeno banco a querer crescer e afirmar-se no contexto do oligopólio do poder financeiro estabelecido em Portugal. As estratégias seguidas e a consequente situação estrutural criada foram o resultado da autêntica “subida a pulso” de quem quis crescer. Os companheiros de Horácio na Administração do BANIF sabem o que quero significar.

O BANIF tem uma cota de mercado em Portugal de cerca de 3.7% mais lideranças claras nos Açores com cota de 35% e na Madeira de 27%. As ilhas representam um contributo muito importante para os resultados.

Outros pontos muito positivos do Grupo estão numa certa limpeza de balanço quanto à dívida soberana, onde não existem investimentos com maturidade superior a um ano, bem como o pleno “funding” do Fundo de Pensões. Neste sentido, o BANIF está a larga distância muito melhor posicionado do que o BCP ou o BPI (na dívida soberana).

Outro ponto, não diria positivo, mas claramente menos negativo do que outros estará no grau de alavancagem e liquidez. O rácio crédito/depósitos está próximo dos 125% e a liquidez/BCE nos € 2.5 BN. Não sendo números brilhantes o rácio de alavancagem está próximo do recomendado pela Troika e a posição de liquidez é incomparavelmente melhor do que o BCP e BES. Não obstante, o BANIF está completamente dependente dos apoios públicos como o demonstra o necessário “roll-over” da operação de € 500M com garantia do Estado.

As debilidades do BANIF são relativamente óbvias, sobretudo para quem leia o relatório de rating da MOODYS de 15 de fevereiro passado. O banco tem um sério problema de eficiência com o seu cost/income nos 65% – um rácio por mau que seja similar ao BPI. No meu entendimento, no atual contexto financeiro não haverá bancos que consigam sobreviver com tal rácio cost/income.

Depois, o BANIF tem o seu crédito concentrado no “middle market” de empresas em Portugal. Contrariamente a outro que beneficiou da concessão de crédito a sectores protegidos, o BANIF emprestou à economia real e sofrerá inevitavelmente com a recessão da economia portuguesa. Adicionalmente, a aquisição da Tecnicredito – uma excelente ideia no momento em que foi feita – criou exposição a um sector especialmente vulnerável no atual contexto económico.

No seu conjunto o rácio de incumprimento de 4% vai subir muito e com isso as necessárias provisões. Ficaria muito surpreendido – tendo em conta por comparação o que se passa nos bancos espanhóis – que este rácio se não venha a aproximar dos 10%. Uma incógnita adicional estará nos empréstimos intra-grupo BANIF, com dimensão significativa.

A reduzida eficiência conduziu evidentemente a uma baixa rentabilidade e a uma débil capitalização consolidada. O Grupo BANIF precisará de capitais adicionais de € 500M mas se eu estivesse no lugar de Teresa Roque não teria dúvida em falar com o Banco de Portugal em € 1BN por razões que esclarecerei adiante.

No seu conjunto, ao preço de Bolsa, o BANIF tem um valor de mercado de cerca de € 160M e a MOODYS acaba de lhe atribuir o Rating de B1, ou seja “altamente especulativo” quatro níveis abaixo do “investment grade”.

É neste quadro, claramente difícil, que Teresa Roque e o Banco de Portugal assumiram a responsabilidade de convidar a nova equipa de gestão, em particular, as suas lideranças nas pessoas de Luís Amado e Jorge Tomé. Quem foi mais responsável por estas escolhas – Teresa Roque ou o Banco de Portugal – só os próprios saberão. De todas as formas parecem-me escolhas muito inspiradas pois o lugar de Chairman assenta que nem uma luva ao único Ministro de Sócrates que saiu do Governo com o seu prestígio aumentado. Jorge Tomé, por sua vez, é uma pessoa de quem tenho a melhor impressão quer no plano pessoal quer profissional. Coincidimos em inúmeras situações e sempre me impressionou positivamente. É certo que tem um perfil muito claro de banca de investimento mas estará perfeitamente adaptado a liderar a sua Comissão Executiva.

Jorge decidiu deixar uma zona de conforto no Grupo CGD pela liderança executiva de um Grupo com as dificuldades que mencionei. É evidente que o não fez sem um claro conforto do Banco de Portugal. Mas os confortos do Banco de Portugal (apesar de melhorados com Costa e Gaspar) valem pouco como um dia poderá testemunhar Adão da Fonseca e portanto recomenda-se a Teresa e Jorge “cintos e suspensórios” nos seus diálogos com o Banco de Portugal.

Um dado lateral mas conceptualmente interessante diz respeito ao facto de Jorge estar constituído arguido por burla fiscal e o Banco de Portugal ter confirmado a sua idoneidade. Isto significa que para o Banco de Portugal os pronunciamentos do Ministério Publico não valem nada – o que me parece muito perigoso pois das duas uma: Ou não valem mesmo nada e o Ministério Público tem um problema grave, ou valem o que deveriam valer e o Banco de Portugal terá um problema grave nas mãos mais cedo ou mais tarde.

Mas a questão BANIF pode complicar-se ainda muito mais para o Banco de Portugal. Ao caucionar uma solução de continuidade e apoio a Teresa Roque  com dinheiros públicos (o que em memória de Horácio pessoalmente apoio), o Banco de Portugal está a assumir uma pesada responsabilidade. Tanto mais quanto, como é do domínio público, se estava na presença de dois planos alternativos para o BANIF. O de Teresa apoiado pelo Banco de Portugal e dinheiro público e o de Fátima Roque.

Fátima propôs-se comprar as posições das filhas alegadamente por € 180M, por sinal um valor superior ao valor de Bolsa. Quais seriam os seus compromissos em relação à recapitalização do BANIF ? Requereria igualmente dinheiro público? Daria garantias que o faria apenas com capitais privados? O Banco de Portugal analisou estas hipóteses e a idoneidade do projeto industrial na mente de Fátima Roque ?

Se o Banco de Portugal analisou estas hipóteses alternativas e optou por Teresa certamente o fez com razões ponderosas. Agora, conhecendo o Banco de Portugal, eu admito como muito provável que não tenha feito estas análises. Se assim for, por desgraça nossa, estará o Banco de Portugal constituído numa pesadíssima responsabilidade quanto à utilização de dinheiros públicos no BANIF.

 

  1. Antonio Almeida says:

    Dr Joao Rendeiro

    FINALMENTE BEM APARECIDO, SEJA POIS,BEM VINDO AO SEU BLOGUE.

    Correcta e esclarecedora apreciaçao sobre o Banif.

    Aguardaremos as apreciaçoes aos outros Bancos,o que,francamente, espero que seja para breve,ASAP,obviamente,sff,nao se esqueça tambem do BdP.

    Cumprimentos

    AFA

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